Estratégica Ilha de Santa Catarina

                                                                                   

A ESTRATÉGICA ILHA DE SANTA CATARINA

Afastados dos tempos da navegação heróica, dos galeões, naus e caravelas e das disputas territoriais, pelos impérios dominantes, hoje não nos damos conta da importância estratégica desta Ilha, agora famosa pelos seus encantos turísticos.

Poucos até, tem na memória a razão do pavilhão catarinense ostentar águia em atitude guerreira, empunhando ancora e chave entrecruzadas. A explicação de que aqui nesta Ilha que deu nome e importância à Capitania, depois Estado, residia a “chave” dos mares do Sul, causa espanto à maioria dos catarinenses, alheios a nossa memória. Vale a pena relembrar.

Plantada próxima à extremidade sul do que a convencionou chamar de “golfo brasileiro”, com sua maior dimensão correndo paralela à costa continental próxima, a Ilha de Santa Catarina forma com esse litoral, um conjunto de baias e enseadas abrigadas, protegidas dos perigosos “mares do albardão” e dos ventos austrais dominantes. Tornou-se, portanto, ponto obrigatório, de refresco e abastecimento, pelas naus da navegação à vela, que intentavam alcançar o litoral sul do continente e mais além do estreito de Magalhães, o oceano Pacífico, então conhecido por “mares do sul”. Após a travessia atlântica, as embarcações muitas vezes necessitavam “carenar”, subir a praia na maré alta, deitar sobre um dos bordos, efetuarem limpeza do casco, troca de pranchas comprometidas, refazerem calafetos e embrear o fundo. A antiga ilha do papagaio grande, hoje península, junto à barra sul, por isso ficou conhecida como “dos reparos”.

Deram fama inicial os navegadores à serviço de Espanha, Juan Diaz Solis, português de nascimento; Alvar Nuñes “Cabeza de Vaca”; Diego Garcia e Sebastião Caboto, que a nomeou. Pela importância do ato, convém destacar o que escreveu a respeito o cronista da expedição, Alonso de Santa Cruz: ...” pusimos nombre Sancta Catalina”... referindo-se à Ilha, chamada “Meiembipé” pelos índios Carijós do ramo Tupi-guarani e ao bergantim, que aqui construíram, para subir o estuário do rio da Prata.

Examinando-se qualquer atlas ou planisfério, desde o séc.XVI, até os atuais, nenhum deixará de registrar esta Ilha de Santa Catherina ou Catarina, o que nos revela a sua importância para todos os navegadores desde então.

Para garantir seu domínio Don João V, nos alvores do sec. XVIII mandou guarnecê-la de fortalezas, encarregando dessa tarefa seu mais recomendado estrategista e engenheiro militar, o brigadeiro José da Silva Paes, que aqui iniciou a construção do terceiro maior sistema defensivo do Brasil Colônia. Para conquistá-la Carlos III, rei de Espanha, atendendo aos insistentes apelos de Don Pedro Cevallos, ex-alcaide em Buenos Aires armou em 1776 a maior armada que até hoje atravessou o Oceano Atlântico. Foram 116 navios de combate e transporte de tropas, trazendo embarcados mais de 10 mil homens dos melhores regimentos de infantaria e artilharia de Espanha.

Nem falamos, por ter ficado apenas em intenções e propostas, do interesse da Inglaterra, para aqui montar a zeladoria do Oceano Atlântico Sul.

Já adentrando o sec. XX registramos os vôos pioneiros da francesa Lattécoére depois Aeropostale, pousando no Campeche. No mesmo local, onde a WESTERN Cable & Wireless, inglesa, amarrou seus cabos submarinos, na conexão com Buenos Aires e a África do Sul. Mesma amarração da moderna fibra ótica, revelando que a posição estratégica permanece atual. Olhando o céu, em dias claros, o ilhéu se surpreende com os “riscos no céu“ deixados por tantas aeronaves que sobrevoam a Ilha, em passagem de seguras aerovias.

Enfim, somos a estratégica Ilha de Santa Catarina, esquecida dos governantes locais, mas sempre cobiçada por potências estrangeiras mais argutas e conhecedoras de sua posição privilegiada no domínio do Sul do Continente.

 

                                                                                                      Armando Luiz Gonzaga

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